"Junto com o primeiro abrir de olhos de manhã, nasceu o primeiro pensamento do dia, que não a surpreendeu com sua aparição, contando que aquele pensamento já a vinha corroendo por um bom tempo.
Suspirou, lutando contra o sono e mexendo seus músculos ao sair da cama, tocando seus pés cínicos no piso gelado.
Suspirou mais uma vez, agora entrelaçando seus dedos desnudos em suas mechas escuras e embaraçadas.
Andou automaticamente até o banheiro e enquanto lavava o rosto pálido e cru, perdeu-se na escuridão que suas pálpebras fechadas proporcionaram, tendo um devaneio rápido, de que hoje o dia seria diferente. Não sabia o porquê, nem mesmo acreditava na sensação que contemplava, apenas a observava, ali, no canto da sua mente.
Como um pássaro numa manhã fria, nublada. Ele existe, e tem plena consciência da sua existência, e faz exatamente o que nasceu para fazer, cantar.
Desceu as escadas de madeiras mornas e lisas, foi a cozinha e ingeriu sua dose diária de cafeína, a qual, clamava não funcionar sem, mas claro, aquilo era meramente uma invenção de seu pobre cérebro viciado, estúpido.
Ao procurar uma roupa no armário, soltou um terceiro suspiro de um dia que nem havia nascido.
Encarou as blusas coloridas, chamativas, as calças ousadas e as saias que mostrariam o que ela queria esconder. Nunca tinha tido coragem de usa-las, preferia as cores neutras e sombrias.
Encarando-as, lembrava da sensação constante que a corrompia quando saia de casa sem sentir-se confortável em sua própria pele. Era como uma dor física, mil facas adentrando sua carne, era assim que a descrevia, exagerando um pouco, como sempre fazia.
Sentia-se presa, encarcerada, esmagada pelas celas que os biólogos chamavam de epiderme.
Tentou, frustrando a si mesma, passar maquiagem numa tentativa de esconder seus verdadeiros traços, despidos. Sempre havia tentado se esconder do mundo quando era obrigada a passar determinado tempo sendo observada por olhos que julgam.
Não era feia, ficava até melhor de lábios pálidos e olheiras, coisa que abominava em seu rosto triste.
Molhou os cabelos por preguiça de desembaraça-los, sem se preocupar de como eles ficariam depois, já que tinha certeza que eles secariam em perfeita sintonia, polidos, rés como a superfície do céu, escuros como uma noite de lua nova.
No caminho para a vida em sociedade, não conseguia tirar os olhos das arvores que nunca saiam do lugar. Olhava as montanhas com suas pedras, e, se imaginava no topo delas, gritando para o mundo que ali estava, que era viva, e que tinha um coração.
O sol que agora ressuscitava depois de ter morrido, queimava levemente suas retinas, o que não a incomodava nem um pouco. Sentia prazer, sentia-se não mais sozinha, tinha finalmente alguém ao seu lado, por pelo menos algum período de tempo. Sentia a radiação adentrando suas céAlulas e sentiu-se completa por meio segundo.
Aquele astro era sua mais devota companhia nos dias de outono.
Adorava outono, sentia-se segura embaixo da barreira de cobertores à noite, e amada pelo sol de dia, naquelas manhãs sucintamente frias, onde o sol e a brisa brigam por espaço e onde as borboletas esvoaçantes coexistem com o oxigênio do ar.
Se bem que não gostava nada da necessidade extrema (seria esta inventada?) que sentia de deitar num gramado baixo, e assistir o céu ao lado de alguém que amasse...
Porém, não amava a ninguém, nunca havia, e não amava a si mesma. Ou talvez não conseguisse amar pois não se amava, ou não se amava pois não podia amar a ninguém.
Não amava e tinha uma teoria da qual se orgulhava, que pensara há uns três anos e já considerava como verdade absoluta.
Achava que amor é uma coisa que só existia se fosse mútua, recíproca.
“Quando duas pessoas, almas separadas e diferentes se amam, elas entram em conjunção. Só assim há amor, pois cada um emite uma energia incompleta, como um átomo que há de se juntar com outro para formar uma molécula. Esse átomo é a devoção, a vontade e a coragem de se entregar para outro ser, e quando há dois deste, nasce a molécula do amor.”
Ela já havia emitido essa energia, uma vez na sua vida, mas não foi respondida, não houve mutualidade, sua alma foi negada pela alma a qual se entregou por completo. Não houve coexistência de sentimentos.
Chorou ao lembrar. Chorou pois nunca amou, e nunca achou que amaria, não nessa vida.
Não chorava por não ter sido correspondida, chorava pois não achava que era capaz de amar, achava que tinha nascido com defeito.
A lágrima que escorreu molhou seus lábios os quais responderam timidamente a um rapaz que a perguntou as horas
- oito e vinte e seis – esboçou com a voz tremula e roca.
- Obrigado
O rapaz tinha a voz grossa e firme, mas com uma sensibilidade oculta a qual a fazia perguntar-se sobre seu passado, sobre seus ideais.
Apaixonava-se tão facilmente, de uma forma tão simples e pura como quando a chuva cai numa tarde de domingo. Apaixonava-se pelos olhos distraídos, pelos trejeitos despercebidos, apaixonava-se não pela carne, mas pela ideia de desvendar os mais profundos segredos da alma alheia.
Desceu as escadas de madeiras mornas e lisas, foi a cozinha e ingeriu sua dose diária de cafeína, a qual, clamava não funcionar sem, mas claro, aquilo era meramente uma invenção de seu pobre cérebro viciado, estúpido.
Ao procurar uma roupa no armário, soltou um terceiro suspiro de um dia que nem havia nascido.
Encarou as blusas coloridas, chamativas, as calças ousadas e as saias que mostrariam o que ela queria esconder. Nunca tinha tido coragem de usa-las, preferia as cores neutras e sombrias.
Encarando-as, lembrava da sensação constante que a corrompia quando saia de casa sem sentir-se confortável em sua própria pele. Era como uma dor física, mil facas adentrando sua carne, era assim que a descrevia, exagerando um pouco, como sempre fazia.
Sentia-se presa, encarcerada, esmagada pelas celas que os biólogos chamavam de epiderme.
Tentou, frustrando a si mesma, passar maquiagem numa tentativa de esconder seus verdadeiros traços, despidos. Sempre havia tentado se esconder do mundo quando era obrigada a passar determinado tempo sendo observada por olhos que julgam.
Não era feia, ficava até melhor de lábios pálidos e olheiras, coisa que abominava em seu rosto triste.
Molhou os cabelos por preguiça de desembaraça-los, sem se preocupar de como eles ficariam depois, já que tinha certeza que eles secariam em perfeita sintonia, polidos, rés como a superfície do céu, escuros como uma noite de lua nova.
No caminho para a vida em sociedade, não conseguia tirar os olhos das arvores que nunca saiam do lugar. Olhava as montanhas com suas pedras, e, se imaginava no topo delas, gritando para o mundo que ali estava, que era viva, e que tinha um coração.
O sol que agora ressuscitava depois de ter morrido, queimava levemente suas retinas, o que não a incomodava nem um pouco. Sentia prazer, sentia-se não mais sozinha, tinha finalmente alguém ao seu lado, por pelo menos algum período de tempo. Sentia a radiação adentrando suas céAlulas e sentiu-se completa por meio segundo.
Aquele astro era sua mais devota companhia nos dias de outono.
Adorava outono, sentia-se segura embaixo da barreira de cobertores à noite, e amada pelo sol de dia, naquelas manhãs sucintamente frias, onde o sol e a brisa brigam por espaço e onde as borboletas esvoaçantes coexistem com o oxigênio do ar.
Se bem que não gostava nada da necessidade extrema (seria esta inventada?) que sentia de deitar num gramado baixo, e assistir o céu ao lado de alguém que amasse...
Porém, não amava a ninguém, nunca havia, e não amava a si mesma. Ou talvez não conseguisse amar pois não se amava, ou não se amava pois não podia amar a ninguém.
Não amava e tinha uma teoria da qual se orgulhava, que pensara há uns três anos e já considerava como verdade absoluta.
Achava que amor é uma coisa que só existia se fosse mútua, recíproca.
“Quando duas pessoas, almas separadas e diferentes se amam, elas entram em conjunção. Só assim há amor, pois cada um emite uma energia incompleta, como um átomo que há de se juntar com outro para formar uma molécula. Esse átomo é a devoção, a vontade e a coragem de se entregar para outro ser, e quando há dois deste, nasce a molécula do amor.”
Ela já havia emitido essa energia, uma vez na sua vida, mas não foi respondida, não houve mutualidade, sua alma foi negada pela alma a qual se entregou por completo. Não houve coexistência de sentimentos.
Chorou ao lembrar. Chorou pois nunca amou, e nunca achou que amaria, não nessa vida.
Não chorava por não ter sido correspondida, chorava pois não achava que era capaz de amar, achava que tinha nascido com defeito.
A lágrima que escorreu molhou seus lábios os quais responderam timidamente a um rapaz que a perguntou as horas
- oito e vinte e seis – esboçou com a voz tremula e roca.
- Obrigado
O rapaz tinha a voz grossa e firme, mas com uma sensibilidade oculta a qual a fazia perguntar-se sobre seu passado, sobre seus ideais.
Apaixonava-se tão facilmente, de uma forma tão simples e pura como quando a chuva cai numa tarde de domingo. Apaixonava-se pelos olhos distraídos, pelos trejeitos despercebidos, apaixonava-se não pela carne, mas pela ideia de desvendar os mais profundos segredos da alma alheia.
Contemplava o mistério dos calados, sentia-se desafiada pelo indecifrável, gostava da ideia de poder penetrar numa outra dimensão.. a dimensão que não a dela..." [to be continued]
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